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PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — VIII

portugués

O que não dera eu se conseguisse

Saber quem foi aquelle senhor de hoje;

Era tão bem par'cido; e de alto sangue

De certo, que no rosto se lhe lia ;

Nem se outro fosse a tanto se attrevera.

Entra. Devagarinho, bem de manso.

Deixa-me só, te peço.

Tal aceio

Não é qualquer mulher que assim o guarda.

Crepusculo suave, sê bemvindo

Tu que vagueas neste sanctuario !

Enche meu coração, pena amorosa,

Que -do orvalho da esp'rança arfando vives!

Como em torno de mim tudo respira

Repouso, ordem, são contentamento ;

Nesta pobreza, que abundancia immensa,

Que bemaventurança neste carcere

Tu me recebe agora, que os passados,

Em horas de tristeza ou de alegria,

Em teus braços abertos acolheste !

Quantas vezes em volta deste throno

Paternal, se juntou risonha chusma

De creanças gentis. Aqui outr'ora,

Pelos dons do Natal agradecida,

Minha amada talvez, co'as rubicundas

Faces da infancia, depozesse um beijo

Do avô na mão rugosa. Sinto, oh virgem,

Teu espirito d'ordem e vigilancia

Sussurrar junto a mim, que te ensinára,

Com materno cuidado, os dias todos

A estender sobre a meza o liso panno,

E até a teus pés o chão de arêa

Reluzente cobrir. Oh mão amada,

Tens divino poder, fazes da choça

Paraiso celeste.

E aqui?

Eu tremo

D'intensissimo gosto, horas inteiras

Aqui passar quizera. Natureza,

Aqui em doces sonhos tu formaste

O anjo á terra vindo.

Não te conheço já.

Cerca-me acaso

Um encantado ambiente? O meu desejo

Era facil prazer, e eis-me todo

Em amorosos sonhos engolphado...

Das impressões do ar á mercê 'stamos?

Depressa, vejo-a vir alli a baixo.

Vamo-nos, vamos, nunca mais cá torno.

Aqui tens um estojo assaz pesado

Que fui buscar algures. Vae-o tu sempre

Mettendo no armario. Em ella o vendo,

Perde a cabeça; puz aqui cousinhas.

Para vencer a outras mais difficeis.

Creanças são creanças, brinco é brinco.

Não sei, talvez não deva....

Que perguntas?

Talvez queiras guardar p'ra ti as joias?

Nesse caso aconselho á paixão vossa,

Que o tempo me poupe e mais trabalho.

Quero crer que não és um avarento?

Dou tratos ao miolo, ando a cançar-me, —

Vamos daqui depressa, vem comigo.—

Só para conseguir que a pobre moça

A vosso desejar se ageite prompto;

E vós estaes ahi como se houvesseis

De ir dar aula, e palpaveis vos surgissem

Physica e Metaphysica deante!

Anda dahi.

Está tão abafado,

Tão quente aqui.

E todavia fóra

Não é tanto o calor. Não sei que tenho.

Quem me dera que a mãe 'stivesse em casa.

Sinto correr-me o corpo um calafrio...

Uma creança sou, tola e medrosa.

Houve outr'ora um Rei em Thule,

Até á morte constante;

Uma taça de ouro fina.

Lhe deixou morrendo a amante.

E nas ondas azuladas

A taça de ouro lançou.

Como veiu aqui ter tão lindo estojo ?

De ter fechado o armario 'stou bem certa.

Maravilhoso é! Que estará dentro?

É talvez um penhor sobre o qual hoje

Deu minha mãe dinheiro. D'uma fita

Aqui pende a chavinha. Abril-o quero.

Que é isto, Deus do ceu! Não vi tal nunca!

Um adereço com que mostrar-se pode

Nos mais solemnes dias uma dona!

Deixa ver o collar. Tanta riqueza

De quem será? De quem tão bellas joias?

Se podessem ser. meus sequer os brincos!

Em os pondo, pareço logo outra.

Que te serve a belleza, pobre moça?

É muito, mas aos homens que lh'importa;

Quasi que mostram dó quando nos gábam.

Ao ouro tende e do ouro depende

Tudo no mundo, tudo! Ai de nós pobres.

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Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — VIII
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-viii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-3a1bb9
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — VIII», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-viii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-3a1bb9.html

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