Des hoge mais quer’ eu trobar
pola Senhor honrada,
em que Deus quis carne filhar
bẽeita e sagrada,
por nos dar gran soldada
no seu reino e nos herdar
por seus de sa masnada
de vida perlongada,
sem havermos pois a passar
per mort’ outra vegada.
E porém quero começar
como foi saudada
de Gabriel, u lhe chamar
foi: « Benaventurada
Virgem, de Deus amada:
do que o mund’ há de salvar
ficas ora prenhada;
e demais ta cunhada
Elisabét, que foi dultar,
é end’ envergonhada ».
E demais quero-lh’ enmentar
como chegou cansada
a Beleem e foi pousar
no portal da entrada,
u pariu sem tardada
Jesu-Crist’, e foy-o deitar,
como molher menguada,
u deitam na cevada,
no preseve apousentar
entre bestias d’arada.
E non ar quero obridar
com’ angeos cantada
loor a Deus foron cantar
e « paz em terra dada »;
nem como a contrada
aos tres Reis em Ultramar
ouv’ a ‘strela mostrada,
por que sem demorada
vinheron sa oferta dar
estranha e preçada.
Outra razón quero contar
que lh’ ouve pois contada
a Madalena: com’ estar
viu a pedr’ entornada
do sepulcr’ e guardada
do angeo, que lhe falar
foi, e disse: « Coitada
molher, sei confortada,
ca Jesu, que véns buscar,
resurgiu madurgada. »
E ar quero-vos demostrar
gran lediç’ aficada
que ouv’ ela, u viu alçar
a nuvem lumenada
seu Filh’; e pois alçada
foi, viron angeos andar
entr’ a gent’ assũada,
muy desaconselhada,
dizend’: « Assi verrá julgar,
est’ é cousa provada. »
Nem quero de dizer leixar
de como foi chegada
a graça que Deus enviar
lhe quis, atan granada,
que por él esforçada
foi, a companha que juntar
fez Deus, e ensinada,
d’Espirit’ abondada,
por que souberon pregar
logo sem alongada.
E, par Deus, non é de calar
como foi corõada,
quando seu Filho a levar
quis, des que foi passada
deste mund’ e juntada
com él no ceo, par a par,
e Reyna chamada,
Filha, Madr’ e Criada;
e porém nos dev’ ajudar,
ca x’é noss’ avogada.