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Sapateiro Silva · Romanticismo

Amei a ingrata mais bela

portugués

MOTE
Amei a ingrata mais bela,
Que o mundo todo em si tem;
Eu morri sempre por ela,
Ela nunca me quis bem.
;GLOSA

;I
Quando eu era mais rapaz,
Que jogava o meu pião,
Andava o Centurião
Dando a todos sotas e ás.
Nesse tempo aos Sabiás
Armava a minha esparrela;
Comia caldo em panela
Por ter os pratos quebrados;
E até por mal de pecados,
Amei a ingrata mais bela.

;II
Depois de mais alguns meses
Já por baixo da sobcapa,
Pelas calçadas da Lapa
Pernoitava muitas vezes.
Não bastaram os arneses,
Que herdei de Matusalém;
Só sei que querendo bem
Me achei como Antão no ermo,
E o mais galante estafermo,
Que o mundo todo em si tem.

;III
Com os anos, com a idade,
Na festa e s seu oitavário,
Só em passo imaginário,
Andava pela Cidade.
Se é mentira, ou se é verdade,
Diga-o a minha mazela,
Que não sendo bagatela
Bem mostra de cabo a rabo,
Que por artes do diabo
Eu morri sempre por ela.

;IV
Depois de velho caduco,
Já cheio de barbas brancas,
Eu bispei-a dando às trancas
Nos sertões de Pernambuco.
Ali trabalho e trabuco
Por lhe abrandar o desdém;
Mas o mau modo, que tem,
Procedido da vil prole,
Faz crer que nem a pão mole
Ela nunca me quis bem.

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Autor
Sapateiro Silva
Título
Amei a ingrata mais bela
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-amei-a-ingrata-mais-bela--sapateiro-silva-1cf4b7
Cita recomendada
Sapateiro Silva, «Amei a ingrata mais bela», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-amei-a-ingrata-mais-bela--sapateiro-silva-1cf4b7.html

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