«Porque estás tão apressado,
Coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
Por esses ares vôar?
Queres de meu pensamento
A carreira acompanhar?
Queres, misero insensato,
Este desejo cumprir?
Intentas da fantazia
Os amplos vôos seguir?
Buscas, vencendo a distancia,
Tua saudade extinguir?…
Esta saudade tão funda,
Tão viva, tão pertinaz,
Que te faz tão desgraçado,
Que tão ditozo te faz?
Que tanto te amarga ás vezes,
Que ás vezes tanto te apraz?
Pretendes tu, pobre louco,
Tuas dôres augmentar?
Desejas ao lado — d’Elle —
De martyrios te fartar?
Queres nos olhos, que adoras,
Mais desenganos buscar?
Si ao excesso do tormento
Tivesses de succumbir,
Quem tanto havia de amal-o,
Deixando tu de existir?
Quem ousaria comtigo
Em firmeza competir?
E elle, onde poderia
Tão soberano reinar?
Onde iria sua imagem
Obter tão devoto altar,
E tão desvelado culto,
Tão fervoroso — encontrar?
Deixa ir só meu pensamento
De seus vôos na amplidão.
Quem sabe, si ao lado d’outra
O acharás, coração?…
Morre embora de saudade;
Porém de ciume… não!»