Un texto, en portugués, fragmento del libro “Crónicas Timorenses” de Joana Rúas, quien dio a conocer recientemente su obra entre el público lisboeta. El literato Pires Laranjeira nos habla del libro.

AS VICISSITUDES DA REPÚBLICA NAS CRÓNICAS TIMORENSES DE JOANA RUAS
Pires Laranjeira
Centro de Literatura Portuguesa/Universidade de Coimbra
<pires.laranjeira@gmail.com>
Joana Ruas é uma escritora que viveu uma parte importante da sua vida em territórios como Angola, Guiné-Bissau ou Timor, muito perto ou até no interior das regiões de guerra, que associa ao carácter de militância cívica as técnicas de cronista e de investigação histórica e da memória, através dos documentos escritos e dos testemunhos orais. Documentou-se fartamente nas memórias colectivas e na construção das memórias individuais, passando pela sua própria experiência, cujo aperfeiçoamento um Maurice Halbwachs teorizou para efeitos de consciência crítica. Ganhou o pleno direito de integrar, pela sua seriedade, o galarim daqueles que, pela sua vida, pela prática da escrita, ilustram uma lusofonia plural, não de superfície e de efeito fácil, mas sim de inquirição do passado, num esforço de explicar, entretecendo vidas de papel sustentadas na História.
O livro Crónicas timorenses, de Joana Ruas, editado por uma nova chancela de Vila Nova de Gaia, a Calendário de Letras, é composto por quatro textos: “D. Manuel Salvador da Costa dos Remédios” (20 páginas); “O cofre e a espada” (36 páginas); “Folhas soltas no bosque” (53 páginas); e “Fulan Mutin (Branca Flor)” (137 páginas). Este conjunto de textos procura prolongar durante o século XX a análise que A batalha das lágrimas (2008) efectuava ao povo timorense, mas, neste caso, relativa somente ao seu começo. Ambos os volumes se subordinam a um título genérico: A pedra e a folha. A pedra da realidade bruta e a folha da (re)criação, representando a memória da crónica, ou a arte e a poesia de bem acolher o visitante pacífico e cansado das agruras da vida.
As quatro “crónicas” são ficções baseadas na História de Timor-Leste, abrangendo um ciclo temporal sensivelmente desde a instauração da República em Portugal até meados dos anos 60, com ênfase nas eufemisticamente chamadas “guerras de pacificação” (que, na verdade, foram sempre guerras de extermínio e repressão odiosa, estendendo-se para além de meados do século XX), ou campanhas de ocupação do território e de esmagamento das revoltas populares e dos levantamentos dos reinos locais contra os ocupantes coloniais.
Num estilo despojado e cronístico, Joana Ruas apresenta fundamentações interessantes de usos e costumes, da História de Timor, com as várias etnias e religiões, países e ideologias políticas em convivência e confronto, ao longo de décadas, sobre um fundo de destruição e morte, do que resultou a construção de um novo Estado-nação. Por entre as lutas e o sofrimento humano, têm o seu lugar o amor e a poesia, tantas vezes com extrema delicadeza e comoção. Trata-se, além disso, de uma lúcida análise da condição feminina de subserviência aos homens e da teia de relações sócio-hierárquicas entre nativos e ocupantes do território de Timor, em que algumas personagens conseguem quebrar convenções, humanizando as relações por cima do rasto de violência.
É um livro de testemunho diferido, isto é, de apelo à memória dos acontecimentos históricos relacionados com a formação e o aparecimento de uma nova nação no mundo. Surge para nos lembrar os crimes que, caucionados pelo sistema colonial e pelas guerras locais ou mundiais, os portugueses, indonésios ou japoneses puderam perpetrar, assim como o assassinato avulso ou de grupos de pessoas inocentes do povo timorense, o exercício despótico e arbitrário do poder colonial, numa era de trevas em que a mulher – oriental, negra ou branca “de segunda” -, vivia como o elo mais fraco da cadeia e da pirâmide sociais.
No título do livro, a autora usa o termo “crónicas” para sugerir que estaremos em presença de textos que pretendem relatar factos, acontecimentos – que verificamos serem históricos – como se fossem crónicas medievais ou renascentistas. Mas o seu estatuto de escritora leva-nos a associar esse expediente à produção de textos ficcionais sustentados por factos históricos, como se quisesse, de um modo diferido, pela passagem do tempo, testemunhar através da ficção, como uma cronista diferida, como alguém que simulasse estar presente na época dos acontecimentos, e aí reside o fascínio deste tipo de ficção, que não se apresenta, contudo, como ficção histórica, ao contrário do longo romance A batalha das lágrimas, esse, sim, pretendendo recontar veridicamente a História dessa batalha e do seu contexto. Algo como tornar-se jornalista, testemunha ou partícipe através da ilusão da reconstituição, mas com a nota de a poesia e o estudo antropológico irromperem com regularidade. Não havendo lugar para o humor ou ironia, apropriados ao distanciamento típico do que é pós-moderno e fantasioso, enquanto excesso de fingimento, foi escolhido o tom sério e dramático da crónica testemunhal, ainda que esse género da crónica, no primeiro texto, sobre o Rei de Laleia e de Laclubar, esteja revestido de uma técnica próxima do fluxo de consciência, mais apropriada ao memorialismo quase intimista do protagonista-herói.
Estas ficções historicizantes não simulam o transporte perfeito e total do leitor para a época relatada, porque, como se comprova em “O cofre e a espada”, são referidos o timorense Fernando Sylvan e um seu texto, posteriores à época descrita, que teorizaram a formação do povo maubere e do fermento da Nação ao longo dos 400 anos em que duas formações sócio-políticas disputaram o poder por sobre as populações e suas culturas, originando o que o narrador chama “um mosaico inquietante de pessoas em trânsito (…) formando (…) combinações abertas ou rigidamente fechadas para sobreviverem” (p. 45). Com este mote, sabemos que a ficção não quer fazer de conta que as acções decorreram exactamente do modo narrado. Pelo contrário, a narrativa assume-se como ideologicamente marcada pela opção de mostrar como os poderosos da época destroçaram pessoas, famílias, clãs e bens e quais as consequências para aquela região. Trata-se, pois, de uma operação ideológica, pela via ficcional, de mostrar como os poderes estabelecidos (Igreja, governo local, líderes gentílicos, senhores de terras e militares), num processo histórico complexo e sanguinário, acabaram por edificar uma nova entidade política e uma nova identidade colectiva.
São “estórias” que ajudam a compreender a formação moderna de Timor-Leste, na sua ligação a Macau e à Coroa portuguesa, e, depois, à República, além da Igreja Católica, oferecendo resistência ao espírito do liberalismo e da democracia republicana, se bem que terminando por lutar a favor da autodeterminação e da independência total, assumindo, pois, pela prática secular e cívica da agregação, o espírito republicano. Já desde os séculos XVII e XVIII que se levantaram guerras do que seria uma proto-independência, envolvendo alguns beneficiários de guerras e comércios locais contra os holandeses e seus aliados. Em Timor, desde o século XVI, comercializava-se o sândalo (árvore cujos produtos têm aplicação na perfumaria e em medicamentos), o mel e a cera. O valioso comércio do sândalo sustenta os conflitos em torno do controle das rotas comerciais, das alianças étnicas, tribais e clânicas, dos serviços às coroas europeias e das dependências religiosas. Só no século XIX é introduzida a cultura do café, devido à perda por Portugal das produções brasileiras, a partir de 1822, e porque o café de São Tomé e Príncipe deu lugar à cultura do cacau.
A entrada no século XX fez-se sob o pesadelo dessas “guerras de pacificação”, assim apelidadas pela historiografia soft dos portugueses, sob o consulado do governador Celestino da Silva, enviado pela Coroa, que deixaram um rasto de sangue e dominação, em tudo semelhante ao que aconteceu noutras colónias. Os timorenses e chineses – por via da sua interligação administrativa e comercial – sempre foram vistos como adversários ajuramentados dos timorenses ocidentais e indonésios, não sendo desprezável o papel religioso quer do cristianismo em Timor, quer do islamismo em Jacarta.
Na segunda história, “O cofre e a espada”, o governador Filomeno da Câmara, enviado pela jovem república portuguesa, recebeu em herança um Timor acossado pelos holandeses e timorenses ocidentais. Narra-se a derrota de D. Boaventura de Manufhai, face à política repressiva, sanguinária, do governador Filomeno, com o seu cortejo de horrores e violações e seguimos as mutações ideo-políticas da personagem segundo uma perspectiva ficcional que nos mostra a sua desorganização corpórea e a sua “doença de origem moral” (que o episódio do espelho reforça), homóloga da desorganização corpórea do povo timorense, no que parece constituir uma brilhante associação entre a psique perturbada e o status totémico do poder, que Freud, Foucault, Bourdieu e Arendt não desdenhariam subscrever. Assistimos, em traços rápidos, à sua passagem do republicanismo a uma espécie de cesarismo e à posterior assunção fascista, acabando por chefiar a revolução tramontana de Abril de 1925 e implicando-se, depois, no 28 de Maio de 1926. Mais tarde, no começo da década de 30, conforme a História registou, Filomeno terminou abruptamente a sua carreira colonialista em Angola, ao ser confrontado com uma revolta popular, em relação à qual ordenou uma brutal repressão.
Ao contar a história do governador Filomeno e a repressão sobre os timorenses, a escritora Joana Ruas está a enquadrar num contexto compreensível a vida de Inkay – a Mãe Amorosa ou Avozinha –, que foi a viúva-rainha de Boaventura da Costa Fernandes Soto Mayor, rei de Manufahi, das terras de milhares e milhares de pés de café, outrora de sândalo. Quando jovem, Inkay fora violada pelo tenente Luís Alves da Silva, com a esposa do qual a primeira mulher de Boaventura, chamada Kaisery, travara amizade. A mesma Inkay, em 1974, recebeu uma delegação da FRETILIN (Frente de Libertação de Timor) e deixou-se fotografar com líderes do povo timorense, como Nicolau Lobato (depois, falecido em combate), Ramos Horta (chefe da diplomacia), Borja da Costa (também falecido durante a invasão indonésia), Leopoldo Joaquim e José Luís Guterres. Em 1978, Inkay viria a morrer de fome, em consequência da invasão de Timor pela Indonésia. A sua história, uma espécie de história de vida ao gosto dos relatos dos sociológos profissionais, implica certa aceitação inelutável do decurso do tempo, numa filosofia que, parecendo resignação submissa, talvez seja, ao invés, uma metafísica da sobrevivência que possibilita a continuidade das gerações e, por isso mesmo, a edificação do Estado-nação.
A cena do espelho, em que Filomeno se assusta com o que vê (ou, como afirmam alguns filósofos da ética, em que os olhos e a face não mentem, tal a impossibilidade de dissimulação, bastando saber lê-los), vislumbrando no seu próprio olhar a imagem do jovem guerreiro que matara num combate desigual, pois ele queria apenas salvar o cavalo que adorava como a um qualquer pequeno deus, essa cena especular/especulativa devolve-lhe o rosto do desamor por si próprio, da incapacidade de se dar aos outros. A cena de um Narciso às avessas, contemplando o horror da sua própria face, é sintomática do impedimento de certos protagonistas históricos poderem compreender o diverso e aceitar uma filosofia da tranquilidade e da convivência democrática e humanista, tão presente nas deambulações antropológicas e poéticas destas narrativas.
O facto de a autora referir teóricos como Adorno e Erich Fromm, ou Marcel Mauss e, no plano fictivo, Rafael Toscano, um antropólogo e poeta que surge na crónica “Fulan Mutin (Branca flor)” mostrando parecenças com Ruy Cinatti, indica que, para além de uma leitura da História, o que confere densidade substancial à essência desses nomes históricos, ditos concretos, é sobretudo a espessura de um comportamento que, arrancado à longa duração, se nos apresenta, naquele preciso instante, como apropriado a um ser corpóreo atravessado por dúvidas e angústias. A ficção de Joana Ruas questiona, desse modo, o retrato sólido e inquebrável dos espíritos totalitários, dos psicopatas do poder (veja-se o pensamento de Filomeno sobre o Poder Absoluto), para os transformar, na encarnação de Filomeno da Câmara, em títeres de poderes mais altos e amplos que os podem sujeitar ao remorso especular. Pelo menos, instala-se a dúvida, neste caso timorense; resta saber se não será humanizar demasiado estes monstros saídos directamente da pré-história para a depredação republicana de povos indefesos.
Do mesmo modo, não é pela brutalidade directa do combate, mas através da particularidade de um japonês escapado à retirada do seu exército, que se perde no território maubere, que nos apercebemos da violência extrema da guerra. A ocupação japonesa, o bombardeio de Díli, o desaparecimento de povoações são assuntos resumidos, a que só a condição do japonês escapado à retirada das tropas, a sua clandestinidade, sofrimento, sobrevivência e morte lenta, narrados com delicadeza e poesia, conferem a expressão da ruína colectiva e dos efeitos directos e colaterais. A antropologia em torno de Uma-lulik, o lugar sagrado dos mortos, onde se acoita e sobrevive o nipónico Yasukichi, estabelece uma corrente de solidariedade, encanto e sedução espiritual entre ele e a timorense Duli, tal como outras antropologias compreensivas inseridas nestas crónicas, na busca de autenticidade e verosimilhança, e constitui um trecho de comovente beleza sentimental.
As referências à cultura poética japonesa, citando inclusive Bushô, ou à cultura javanesa, nesta história, como depois noutras, à história de Angola, à revista Cultura, revitalizada no final dos anos 50, e ao poeta e militante Agostinho Neto, atestam a interculturalidade no âmbito dito lusófono e a vontade de deixar exarada a marca das opções políticas. Em “Fulan Mutin”, cujo subtexto é a história tradicional de Branca Flor, essas notações, com pormenorizados efeitos de real, melhor ajudam a explanar a condição feminina de Beatriz, angolana, branca “de segunda”, que, sendo uma mulher próxima do povo timorense pela afectividade e bonomia espontâneas, mais a ele se cola pela sua situação humilhante de esposa sequestrada por um marido português “de primeira” (de Coimbra), oportunista e sem escrúpulos. A missiva que Beatriz recebe do seu irmão Raul, perdido na guerra colonial em Angola, esclarece-a sobre a natureza do regime salazarista da metrópole, despertando-a para a libertação pessoal do casamento, tal como a explicação da aliança de cristãos e muçulmanos contra os ateus e comunistas na Indonésia ao serviço da ditadura de Suharto funciona como iluminação política da época conturbada na Indonésia, em que foram assassinados centenas de milhar de simpatizantes do regime popular de Sukarno, mostrando como essa perseguição à democracia se estendeu, depois, a Timor-Leste. Beatriz é uma das personagens principais destas crónicas, por nela se identificar a condição adversa da mulher, ainda que branca e casada com homem português. A prosa de Joana Ruas, deve insistir-se neste ponto, persegue o ideal de refazer e relembrar a História, para que não caia no esquecimento, não com o carnaval da fantasia maravilhosa, mas com o propósito estimulante de mostrar os mecanismos de construção do poder e a ruína e miséria do povo desprevenido e desprotegido. A eficácia de processos lembra o jornalismo, que o conceito do género cronístico reforça, todavia com a delicadeza lírica que certas histórias encaixadas emprestam à narração, como as do amor e grandeza de Inkay ou de Yasukichi.
As quatro crónicas-narrativas referem tempos, reinos e protagonistas históricos e fictivos diferentes, num fresco que procura levar o leitor à aproximação à “questão timorense”, à construção do seu percurso no rumo da nação, da pátria e do país independente que hoje conhecemos. Esse percurso foi construído dialecticamente na luta das etnias, castas e classes contra os ocupantes portugueses, malaios, holandeses, japoneses, indonésios e australianos. O sentido do ethnos congregador e da civitas nacional emerge dessa primeva luta contra a espoliação e a opressão.
O enquadramento histórico sofre um confronto afectivo, ético e ideológico em vários episódios, em que alguns protagonistas emergem como que ilustrando o geral com a sua história e o seu comportamento edificantes, conferindo espessura cultural e intelectual às suas acções, explicando-as melhor, não de maneira basicamente positivista, mas, de certo modo, recuperando a ideia, que parece acertada, de que certas atitudes são apenas o desabrochar do ovo da serpente. Neste sentido, a condição feminina timorense é alicerçada numa teia tradicionalista de costumes patriarcais, másculos e guerreiros e de alianças políticas complexas, em que à mulher se reserva o papel de reprodutora, esposa sem voz, madrinha do lar e mão-de-obra doméstica de subsistência. Em contextos adversos, já não é pouca coisa. Que algumas personagens femininas – como Inkay ou Duli – se destaquem enquanto figuras simbólicas da ousadia de ultrapassarem as barreiras familiares e de vizinhança, para se afirmarem como protótipos a caminho da emancipação da tutela étnica, não pode deixar de ser também o resultado da perturbação introduzida na sociedade pelos tempos coloniais e pela guerra, com a intromissão agressiva, violenta, dos outros na mesmice da cultura insulada. Ou seja, a violência da colonização e da guerra, da dominação e da usurpação ocasiona a revolta e determina a mudança, com o correlato acesso à modernidade. Com estas crónicas, reforçamos a ideia assustadora, uma vez mais, de que, desde o século XVIII ao século XX, tanto em Timor como em Angola, Moçambique ou na China, a entrada dos povos na modernidade se faz através das armas nas mãos dos homens, pela porta do massacre, da rapina e da razia de algumas culturas locais.
Bibliografia
CRISTÓVÃO, Fernando (org.) et alii, Dicionário temático da lusofonia, Lisboa, Texto, 2005.
RUAS, Joana, Crónicas timorenses, Coimbra, Calendário, 2009.
RUAS, Joana, Corpo colonial, Coimbra, Centelha, 1981.
RUAS, Joana, A batalha das lágrimas, Coimbra, Calendário, 2008.
Pires Laranjeira é professor de Literaturas e Culturas Africanas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, integrando o seu Centro de Literatura Portuguesa como investigador, tendo publicado vários livros e ainda artigos em dezenas de publicações periódicas:
A negritude africana de língua portuguesa, Porto, Afrontamento, 1995 (Dissertação de doutoramento).
"Língua e literatura nos países africanos de língua oficial portuguesa" in Língua mar, 2ª ed., Rio de Janeiro, FUNARTE, 1997, pp. 83-99."
As literaturas africanas de língua portuguesa – identidade e autonomia", in Scripta, vol. 3 (2000), Belo Horizonte, PUC/MINAS, pp. 237-244.
"As categorias da poesia (com referências à Negritude)", in José Luis Rodríguez (ed.), Estudos dedicados a Ricardo Carvalho Calero, tomo II, Santiago de Compostela, Parlamento da Galiza/Universidade de Santiago de
Compostela, 2000, pp. 329-336.
"O estudo das literaturas africanas de língua portuguesa (1ª parte)", in Xicóatl. Estrella Errante. Magazin Cultural Latinoamericano, 51 (Nov.-Dez. de 2000), Salzburgo, Yage, pp. 10-12 e 10-12 (português e alemão).
idem, 2ª parte, idem, 52 (2001), pp. 10-12 e 10-12 (português e alemão).
Para uma sociocrítica da narrativa de João Melo: a violência das relações afectivas, sociais, entre homens e mulheres” (prefácio), in João Melo, Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 1999, pp. 11-25
Le monde lusophone (chapitre V): la littérature coloniale portugaise”, in Jean Sévry (ed.), Regards sur les littératures coloniales. Afrique anglophone et lusophone, tomo III, Paris, L’Harmattan, 1999;
Negritude africana de língua portuguesa. Textos de apoio (1947-1963) (org.), Braga, Angelus Novus, 2000;
A poesia de fim-se-século e o Realismo”, in Carlos Reis (org.), História da literatura portuguesa. O Realismo e o Naturalismo, vol. 5, Lisboa, Alfa, 2001, pp. 361-395;
“Mia Couto e as literaturas africanas de língua portuguesa”, in Revista de Filología Románica. Anejos, II (2001), Madrid, Universidade Complutense, pp. 185-205;
Estudos afro-literários, Lisboa, Novo Imbondeiro, 2001;
Responsável, no Dicionário de Literatura, organizado pelo Prof. Jacinto do Prado Coelho, pelas partes de actualização da literatura brasileira (de 1500 a 2001, sobretudo de 1960-) e de criação das literaturas africanas, num total de mais de 450 verbetes;
Vários artigos para a Biblos – Enciclopédia das Literaturas, com dir. do Prof. Aníbal Pinto de Castro.

Crónicas Timorenses — estas crónicas abrangem um período que vai de 1910 a 1965. Dada a interferência no território de vários protagonismos quer antes quer depois da 2ª Guerra Mundial, a autora deu à progressão dessa realidade complexa a forma de contos por se basearem em documentação escrita e oral. São estas as crónicas: D. Manuel dos Remédios — breve texto sobre o exílio e morte na serra de Lavater deste liberal timorense perseguido pelas autoridades militares e religiosas em 1878; O Cofre e a Espada — a autora desenvolve e aprofunda, a partir de personagens timorenses, a trama que leva à guerra de Manufahi quando em Portugal vigorava o novo regime — a República. A autora segue o desenrolar deste conflito baseando-se na obra do oficial da Armada, Jaime do Inso, intitulada Timor-1912 ; Folhas soltas no bosque — a acção deste conto que se baseia nas informações contidas no livro Funo-A Guerra em Timor de Carlos Cal Brandão, decorre no rescaldo da retirada nipónica de Timor, em Agosto de 1945; Fulan-Mutin (Branca- Flor) — a chegada dos oficiais milicianos e suas esposas a Timor-Leste, as consequências do golpe contra Sukarno e também sobre os ventos de mudança que se anunciavam em Portugal e nas colónias. Este volume de contos tem cerca de 300 páginas.
Excerto de Fulan Mutin (Branca Flor)
E, como ela saísse para a rua , o cabo seguiu-a e perguntou: — Para onde vai, Fulan Mutin?
— Sou Maria Benedita, filha de D.Carlos e estou lá para os lados da praia. A noite não tarda a cair e eu não quero viajar às escuras.
Maria Benedita chamou Olímpio e começaram a subir morro acima seguidos pelo cabo. Estavam já naquela plataforma ondulada e sulcada de vales estreitos onde serpenteavam pequenos arroios alimentados pela água suada pelos montes ensopados e tendo em frente, velando como uma estátua de pedra, as escarpas do Mate-Bian e o céu tão perto das cabeças que parecia repousar placidamente sobre o Mundo Perdido, quando o sino da Missão começou a tocar a finados. O rosto do cabo tornou-se grave.
— Eu acompanho-a até casa. O sino, quando toca antes de eu começar a jogar, dá-me azar. Mas espere aqui por mim que eu não dei resposta ao chinês.
E, tendo-se desculpado pela viagem perante o china, Filomeno partiu com Maria Benedita.
Olímpio que com a espera se deixara adormecer debaixo de uma árvore, quando Maria Benedita lhe tocou no ombro para o acordar, apesar de estremunhado, espantou-se de a ver com um desconhecido que depois de pegar em Maria Benedita pela cintura, a colocou em cima do cavalo. E mais espantado ficou quando o desconhecido, sem cerimónia, tomou o cavalo dele para o montar. Já encolerizado com tanto atrevimento, levantou-se de supetão e gritou: — E eu onde vou?
Como nem ela nem ele cuidassem da sua pessoa, Olímpio achou melhor calar-se para ver se entendia melhor o que se estava a passar e foi andando a pé atrás deles que não pareciam apressados, pelo contrário, iam calados, mas Olímpio captou qualquer coisa no ar, impalpável mas demasiado presente para ser irreal. Era como se o mundo estivesse, de repente, todo sossegado. Pegou num galho para bater as ervas do caminho mas susteve o gesto. Podia-se quebrar o encanto e, mesmo só podendo vê-los de costas, sentia que apesar de montados em cavalos diferentes eles iam andando como se fossem uma só pessoa, uma só respiração, um só alento. Iam os dois tão paradamente andando que as borboletas poisavam nas crinas dos cavalos, nas orelhas e nas caudas. Quando em uníssono se olharam olhos nos olhos, os cavalos, sentindo-lhes a leveza, ousaram baixar as cabeças e puseram-se a comer erva. Olímpio tossiu. Os cavalos começaram a trotar. E, como tivesse que correr atrás deles, gritou-lhes que parassem. Eles olharam para trás e começaram a rir.
As nuvens corriam velozes pelo céu fora. A saia azul do vestido de Maria Benedita enfunou-se como uma bandeira, o chapéu caiu-lhe para os ombros e as fitas da cintura levantaram-se para lhe bater no rosto. Pararam. Maria Benedita trocou o vestido pela lipa e prendeu o chapéu com um lenço que atou com um nó debaixo do queixo. Quando continuaram a viagem, o vento despenhava-se do céu descendo as montanhas num vozeirão tremendo, galgava colinas e prados e, ao passar junto às gargantas dos rochedos, atirava-se pelos desfiladeiros em assobios sibilinos. As montadas dispararam vale abaixo. Cavalos selvagens, soltando-se da manada, fustigados pelo vento que lhes desatava as crinas revoltas, acolhiam como uma riqueza inestimável o vigoroso abraço da ventania, empinavam-se e relincham numa saudação estrepitosa, expondo as narinas ofegantes à picante carícia do ar fresco. Os viandantes embrenharam-se na floresta onde a ventania sossegada rumorejava no cimo das árvores altíssimas até que saía da densa folhagem e, já cansada, se ia estender como uma brisa fresca sobre o mar. Desmontaram para descansarem. No meio da floresta , o vento entrava ali devagar como num templo. A atmosfera carregava-se do perfume das flores e, no ar um pouco agitado, ainda as pétalas tombavam das árvores em miríades esmaltando a terra fofa. O vento trazia rumores vários, cicios e assobios e a frescura de uma primavera breve. Para as flores dióicas chegavam as núpcias: o seu pólen espalhava-se nos ares como o sorriso de um deus amarelo e, no recesso das folhas, na benigna obscuridade que as cercava, as flores aceitavam com um frémito voluptuoso a carícia da brisa e, enlanguescendo, derramavam-se lançando no seio da doce brisa o pólen fecundante. Os ninhos castanhos ou cinzentos recebiam o benefício de uma leve pétala branca poisando no seu ovo azul. O botão da flor da lua, ao sentir a aproximação da noite, estremecia um pouco e entreabria-se para desabrochar, caprichosa, na noite alta. Tinham-se sentado em frente um do outro. Ele tirara a camisa para ela se sentar nela e Maria Benedita olhava o seu peito largo e forte de filho das montanhas. Ela enrolara nas mãos um lenço de seda bordado a violetas e ficara de olhos baixos, submissa e grave. O seu rosto perdera a jovialidade e os olhos, a vivacidade. Mesmo quando chorara ele vira por detrás das lágrimas a vivacidade tenaz, a determinação juvenil e quase caprichosa por um objectivo. Agora via-a de semblante grave e olhos que escondiam uma súplica. Ele desfez o nó que lhe atava as mãos postas e, tomando-as entre as suas, levou-as à testa.
— Eu começo a sofrer antes mesmo da despedida. No corpo e na alma. Agora, quer partas ou quer fiques, já não sou mais moça, sou mulher antes de ser noiva.
— Eu estou aqui para responder ao teu sentimento. Vou pedir-te em casamento ao teu pai.
Joana Ruas